“A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos – vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono e drogas tem cada um sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono deesperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o prncípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multaque paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso – o rastro da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.”
“Eu sou Estamira. Eu sou a beira do mundo. Eu to lá, eu to cá, eu to em tudo quanto é lugar. E todos dependem de mim! Todos dependem de Estamira! Todos!” Estamira
Se você não viu o documentário Estamira, estou recomendando.
Parece estar bem próximo o dia em que nada poderá ser simplesmente… esquecido. Afinal, quem pode deixar de notar que a “informática”, entre outras coisas, é mais uma tentativa, somente bastante sofisticada, de produzir e armazenar registros de nossos passos? A informática como um enorme depósito de informações, uma hipermemória pairando sobre nós. Alguém ainda duvida do sentido de se desejar tal maquinaria?
Em nosso mundo esse tipo de notação tem um sentido preciso: a possibilidade de rastreamento. Precisamos dos bodes espiatórios, precisamos punir alguém, sempre. Tudo se passa como se não pudéssemos deixar de perseguir uns aos outros. Não queremos somente saber o que se passa. Precisamos saber quais foram as intenções. E se queremos almas para vampirizar nada melhor que formar um grande depósito das almas, uma região onde são armazenados, dia a dia, cada passo, cada gesto, cada palavra. Alguns se sentem seguros com isso, porque têm medo da possibilidade de não terem de prestar contas. Outros simplesmente seguem as tendências. Em todo caso, está tudo lá, aqui, armazenado para posteriores consultas, retido e existente até que o servidor se apague.
Mas há uma vontade de vingança, um ressentimento, que sobressai a cada bite guardado na imensa rede.
Resta saber quem vai ter paciência para revirar tudo isso um dia.
Mantenha o silêncio, mesmo que para isso precise cantar.
Frequentemente precipitamo-nos ao expor um pensamento. Quando não há esse sentimento que revela a inaptidão para o que está sendo pensado é porque não se está realmente pensando; é apenas uma repetição, algum pensamento que veio até nós pela memória. O pensamento mesmo não é memória, apesar de utilizar recursos mnemônicos em sua exposição. Para ser pensamento deve ser uma extrapolação. Como expor, então, o que não encontra relação com o já conhecido, mas que necessita ser comunicado?
Escavada no corpo está uma passagem estreita e perigosa. Aqui fora, pela pequena brecha avistará alguns loucos dançando entre livros sobre um chão de ossos polidos.