Respostas?

Junho 23rd, 2009 de admin

De onde viemos?
Não viemos, mas sempre estivemos.

Para onde vamos?
Não vamos, continuamos indo.

Onde estamos?
No próprio caminho que é um caminho próprio.

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O grande depósito das almas.

Maio 30th, 2009 de admin

Parece estar bem próximo o dia em que nada poderá ser simplesmente… esquecido. Afinal, quem pode deixar de notar que a “informática”, entre outras coisas, é mais uma tentativa, somente bastante sofisticada, de produzir e armazenar registros de nossos passos? A informática como um enorme depósito de informações, uma hipermemória pairando sobre nós. Alguém ainda duvida do sentido de se desejar tal maquinaria?
Em nosso mundo esse tipo de notação tem um sentido preciso: a possibilidade de rastreamento. Precisamos dos bodes espiatórios, precisamos punir alguém, sempre. Tudo se passa como se não pudéssemos deixar de perseguir uns aos outros. Não queremos somente saber o que se passa. Precisamos saber quais foram as intenções. E se queremos almas para vampirizar nada melhor que formar um grande depósito das almas, uma região onde são armazenados, dia a dia, cada passo, cada gesto, cada palavra. Alguns se sentem seguros com isso, porque têm medo da possibilidade de não terem de prestar contas. Outros simplesmente seguem as tendências. Em todo caso, está tudo lá, aqui, armazenado para posteriores consultas, retido e existente até que o servidor se apague.
Mas há uma vontade de vingança, um ressentimento, que sobressai a cada bite guardado na imensa rede.
Resta saber quem vai ter paciência para revirar tudo isso um dia.

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Muitos de mim

Maio 27th, 2009 de admin

Não quero falar em nome dos muitos de mim. Essa é uma covardia que quero esquecer.

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Eu é palavra.

Maio 26th, 2009 de admin

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Mensagens do fora - II

Abril 18th, 2009 de admin

Mantenha o silêncio, mesmo que para isso precise cantar.

Frequentemente precipitamo-nos ao expor um pensamento. Quando não há esse sentimento que revela a inaptidão para o que está sendo pensado é porque não se está realmente pensando; é apenas uma repetição, algum pensamento que veio até nós pela memória. O pensamento mesmo não é memória, apesar de utilizar recursos mnemônicos em sua exposição. Para ser pensamento deve ser uma extrapolação. Como expor, então, o que não encontra relação com o já conhecido, mas que necessita ser comunicado?

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Mensagens do fora

Abril 17th, 2009 de admin

Escavada no corpo está uma passagem estreita e perigosa. Aqui fora, pela pequena brecha avistará alguns loucos dançando entre livros sobre um chão de ossos polidos.

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Pessoa.

Março 30th, 2009 de admin

“Reconheço hoje que falhei; só pasmo, às vezes, de não ter previsto que falharia. Que havia em mim que prognosticasse um triunfo? Eu não tinha a força cega dos vencedores ou a visão certa dos loucos… Era lúcido e triste como um dia frio.”

Parte do “Livro do Desassossego” (319) de Fernando Pessoa

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Definitivamente - por Hugo Adrián

Fevereiro 19th, 2009 de admin

Definitivamente

Definitivamente, não preciso existir.
Se existe o produto de minha ausência em arte
E fizesse calar minha voz o verso
Meu olhar fosse o seu ao livro no prelo
Deixaria as linhas de meu destino no desatino da leitura
Da literatura minha e que por mim vive
Surra, urra, lânguida aparece de repente
Sem presença de vida
desvia a poesia uma cara oculta
A aparência nula, a repetição absurda
O sentido desdobrando em mais sentidos,
A máscara forçada à palavra usada
A lâmina suave rasgando a garganta
Fera de posições contrarias ao poente
Fera solta na prisão do corpo todo
Feito espectro inútil em fúria
Um lampejo de idéia escapa e retém brevidades
E retém no fim a apoteose das matérias do que resta
Resta pó e silêncio, resta a brisa em movimento
Saudações aos povos das ruínas,
que juntam pele entre as unhas
estão fatigados de signos,
numerando sem números a quantidade de mortos
a atravessarem o lençol maculado estendido
sobre alcova da história
sob a escassez da vida,
como sopro último do moribundo que fui…

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Todo esse lirismo, essa transvaloração, esses cantos do autor parecem jorrar inesgotáveis. Ser poeta não é escrever, é também encontrar na palavra a possibilidade da poesia. Sou muito grato ao destino por poder ouvir essa voz desse meu amigo, que não comunica: trás.

Tem mais.. tem muito mais de onde veio esse. Esse e alguns outros estão no mais recente blog do autor aqui.

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“E mora em roma” (por David Prieto)

Fevereiro 10th, 2009 de admin

E mora em Roma.

Amar a distancia é ao mesmo tempo uma doce e amarga loucura.
Na nuvem que insiste em acompanhar o exilado amante, o odor da dor paira
e ali vive com o amor que mora em Roma, quiçá num amargo ramo de romã
que, por trás da encantadora beleza, resguarda em sua seiva traiçoeiro fel,
sangrentos espinhos e um fruto doce mas repleto de indigestas sementes.
Féleo e fendido transforma-se o distante em um indígite indignado que pelo
caminho as defeca intactas junto a um promissor bolo propício à reprodução
de sua espécie.
Assim, sendo de reinos distintos e de naturezas tão adversamente avessas,
não lhe foge do pensar o quão insano é aquele que tem amor ao amargo ramo
de uma romã que em Roma vive.

David Prieto

O poema foi enviado a mim pela Adriana. Não tive conhecimento prévio. Gostaria só de fazer um observação quanto ao estilo do David, e isso vale para sua música também. Ele parecia ter um fascínio por jogos de palavras e números. Frequentemente fazia quadrados mágicos, gostava da brincadeira entre significados e ordenação de signos.. de embaralhar sem deixar de expressar, de parecer fora do tom e estar, na verdade, no limite da tonalidade. Ele realmente viveu no limite e acho que deixou para nós, além da enorme saudade, uma espécie de puzzle. Cada um que monte como puder. Para um saber fronteiriço é preciso poder se equilibrar, ou cair. O que não dá é pra viver encarcerado. Roma, amor. Romã!

R.P.

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Poema de amor.

Dezembro 6th, 2008 de admin

René M. Rilke, nas famosas cartas ao jovem poeta alertava seu pupilo sobre os riscos de escrever poemas de amor. “Quase tudo já foi dito sobre o tema e de maneira virtuosa”, afirmou. O mestre recomenda então que se debruce, o iniciante, sobre temáticas menos exploradas na poesia; risco menor de rejeição.
Borges também, que talvez não se aceitasse poeta tanto quanto parecia se divertir como uma espécie de cronista da memória – e devemos nos apartar da indagação sobre a conexão entre memória e qualquer noção de realidade (objetiva ou subjetiva) nesse ponto – dedicou algum tempo esquadrinhado metáforas e montando quadros um tanto enfadonhos de lugares-comuns da poesia através dos tempos. Claro que os poemas de amor entraram na dança.

Mesmo assim, sob pena de passar ridículo - de antemão absolvido – registro abaixo meu delírio:

Nós dois somos artistas

E é daí que nasce nosso amor e nosso ódio.

Tu amas minha delicadeza exata, que te surpreende num momento impróprio; ama minhas palavras que reviram este mundo em outro.

Eu amo como te enfeitas, tu que já és beleza, e faz-se ainda mais bela para me ver gozar. Amo a maneira como lutas para domar as impressões dos que te cercam.

Tu amas minha fúria em defender-me. Eu amo seu amor condescendente, não menos egoísta que o meu.

Mas nós dois somos artistas.. e por mais belos que nos façamos, tudo é um truque entre nós e o indizível se contempla sob cada brecha entre os véus estendidos.

Então odeias quando me faltam as palavras e a minha rispidez lhe salta ao pescoço. E te odeio porque não podes deixar de odiar a ti mesma por não fazer-me amar-te.

E tudo, queremos, seja nossa obra: nós mesmos, nos mínimos detalhes. Nossa casa, em todo canto ou peça. Nossas palavras, em cada canto ou silêncio. Nossos corpos e seus retorcidos gestos e cada cicatriz. Até que se nos apresente a intuição do futuro e deite sobre nós um cansaço… de artista. Aquela exaustão de quem se sabe insubstituível.

Então… num disparate do tempo, abandonaremos a obra? Entregaremo-nos ao amor vulgar dos que vivem sem razão, sem paixão?
Não.
A obra, nosso amor, que se arrebente no chão!

Que vire ruína ou sirva de aterro à nossa nova invenção.

R.P.

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