“O lirismo de Rousseau e a obsessão de Bentham.”

Setembro 13th, 2008 de admin

Michel Foucault em resposta a Jean-Pierre Barou em uma entrevista intitulada “O Olho do Poder”, publicada no livro Microfísica do Poder, sobre o Panopticon, diz o seguinte:

“Eu diria que Bentham é o complemento de Rousseau. Na verdade, qual é o sonho rousseauniano presente em tantos revolucionários? O de uma sociedade transparente, ao mesmo tempo visível e legível em cada uma de suas partes; que não haja mais nela zonas obscuras, zonas reguladas pelos privilégios do poder real, pelas prerrogativas de tal ou tal corpo ou pela desordem; que cada um, do lugar que ocupa, possa ver o conjunto da sociedade; que os corações se comuniquem uns com os outros, que os olhares não encontrem mais obstáculos, que a opinião reine, a de cada um sobre cada um. Starobinski escreveu páginas muito interessantes a este respeito em La Transparence et l’Obstacle e L−Invention de la liberté.
Bentham é ao mesmo tempo isto e o contrário. Ele coloca o problema da visibilidade, mas
pensando em uma visibilidade organizada inteiramente em torno de um olhar dominador e
vigilante. Ele faz funcionar o projeto de uma visibilidade universal, que agiria em proveito de um poder rigoroso e meticuloso. Sendo assim, ao grande tema rousseauniano − que de certa forma representa o lirismo da Revolução − articula−se a idéia técnica do exercício de um poder “omnividente”, que é a obsessão de Bentham; os dois se complementam e o todo funciona: o lirismo de Rousseau e a obsessão de Bentham.”

(p. 215 da 5ª Edição – Editora Graal)

Achei bastante adequado inaugurar assim esse blog.

Tempos atrás, pouco mais de um ano, li a respeito da preparação de uma “nova” internet que viria a substituir essa que conhecemos (conhecemos?). Sua arquitetura permitiria atender com eficácia as espectativas de governos e coorporações por maior controle de transações e fluxo de informações. Ao rever essa entrevista de Foucault foi inevitável a questão: será que conhecemos da internet, até o momento, somente esse “lirismo de Rousseau”? Como será nossa experiência nessa rede quando se efetivar a “obsessão de Benthan”? Conheceremos finalmente a aranha, que se alimentará nessa rede?
Uma coisa parece certa: essa aranha, se vier, resultará de seu próprio instrumento de caça. Talves seja essa a consequência moral da web 2.0 – parir o monstro que irá nos engolir.

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