Poema de amor.

Dezembro 6th, 2008 de admin

René M. Rilke, nas famosas cartas ao jovem poeta alertava seu pupilo sobre os riscos de escrever poemas de amor. “Quase tudo já foi dito sobre o tema e de maneira virtuosa”, afirmou. O mestre recomenda então que se debruce, o iniciante, sobre temáticas menos exploradas na poesia; risco menor de rejeição.
Borges também, que talvez não se aceitasse poeta tanto quanto parecia se divertir como uma espécie de cronista da memória – e devemos nos apartar da indagação sobre a conexão entre memória e qualquer noção de realidade (objetiva ou subjetiva) nesse ponto – dedicou algum tempo esquadrinhado metáforas e montando quadros um tanto enfadonhos de lugares-comuns da poesia através dos tempos. Claro que os poemas de amor entraram na dança.

Mesmo assim, sob pena de passar ridículo - de antemão absolvido – registro abaixo meu delírio:

Nós dois somos artistas

E é daí que nasce nosso amor e nosso ódio.

Tu amas minha delicadeza exata, que te surpreende num momento impróprio; ama minhas palavras que reviram este mundo em outro.

Eu amo como te enfeitas, tu que já és beleza, e faz-se ainda mais bela para me ver gozar. Amo a maneira como lutas para domar as impressões dos que te cercam.

Tu amas minha fúria em defender-me. Eu amo seu amor condescendente, não menos egoísta que o meu.

Mas nós dois somos artistas.. e por mais belos que nos façamos, tudo é um truque entre nós e o indizível se contempla sob cada brecha entre os véus estendidos.

Então odeias quando me faltam as palavras e a minha rispidez lhe salta ao pescoço. E te odeio porque não podes deixar de odiar a ti mesma por não fazer-me amar-te.

E tudo, queremos, seja nossa obra: nós mesmos, nos mínimos detalhes. Nossa casa, em todo canto ou peça. Nossas palavras, em cada canto ou silêncio. Nossos corpos e seus retorcidos gestos e cada cicatriz. Até que se nos apresente a intuição do futuro e deite sobre nós um cansaço… de artista. Aquela exaustão de quem se sabe insubstituível.

Então… num disparate do tempo, abandonaremos a obra? Entregaremo-nos ao amor vulgar dos que vivem sem razão, sem paixão?
Não.
A obra, nosso amor, que se arrebente no chão!

Que vire ruína ou sirva de aterro à nossa nova invenção.

R.P.

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