Poema de amor.
René M. Rilke, nas famosas cartas ao jovem poeta alertava seu pupilo sobre os riscos de escrever poemas de amor. “Quase tudo já foi dito sobre o tema e de maneira virtuosa”, afirmou. O mestre recomenda então que se debruce, o iniciante, sobre temáticas menos exploradas na poesia; risco menor de rejeição.
Borges também, que talvez não se aceitasse poeta tanto quanto parecia se divertir como uma espécie de cronista da memória – e devemos nos apartar da indagação sobre a conexão entre memória e qualquer noção de realidade (objetiva ou subjetiva) nesse ponto – dedicou algum tempo esquadrinhado metáforas e montando quadros um tanto enfadonhos de lugares-comuns da poesia através dos tempos. Claro que os poemas de amor entraram na dança.
Mesmo assim, sob pena de passar ridículo - de antemão absolvido – registro abaixo meu delírio:
Nós dois somos artistas
E é daí que nasce nosso amor e nosso ódio.
Tu amas minha delicadeza exata, que te surpreende num momento impróprio; ama minhas palavras que reviram este mundo em outro.
Eu amo como te enfeitas, tu que já és beleza, e faz-se ainda mais bela para me ver gozar. Amo a maneira como lutas para domar as impressões dos que te cercam.
Tu amas minha fúria em defender-me. Eu amo seu amor condescendente, não menos egoísta que o meu.
Mas nós dois somos artistas.. e por mais belos que nos façamos, tudo é um truque entre nós e o indizível se contempla sob cada brecha entre os véus estendidos.
Então odeias quando me faltam as palavras e a minha rispidez lhe salta ao pescoço. E te odeio porque não podes deixar de odiar a ti mesma por não fazer-me amar-te.
E tudo, queremos, seja nossa obra: nós mesmos, nos mínimos detalhes. Nossa casa, em todo canto ou peça. Nossas palavras, em cada canto ou silêncio. Nossos corpos e seus retorcidos gestos e cada cicatriz. Até que se nos apresente a intuição do futuro e deite sobre nós um cansaço… de artista. Aquela exaustão de quem se sabe insubstituível.
Então… num disparate do tempo, abandonaremos a obra? Entregaremo-nos ao amor vulgar dos que vivem sem razão, sem paixão?
Não.
A obra, nosso amor, que se arrebente no chão!
Que vire ruína ou sirva de aterro à nossa nova invenção.
R.P.
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